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Daniela Marreco Diretoria da ANVISA falando em microfone

Revisão das normas para doenças raras: o que muda e como isso pode ampliar o acesso aos tratamentos

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) possui regras específicas para acelerar o desenvolvimento e o registro de medicamentos destinados a pacientes com doenças raras. 

Agora, essas normas para doenças raras estão passando por um processo de revisão que poderá tornar o ambiente regulatório ainda mais eficiente, preservando os critérios de qualidade, segurança e eficácia exigidos para qualquer medicamento.

Segundo uma entrevista feita pelo portal Futuro da Saúde com a diretora da Segunda Diretoria da Anvisa, Daniela Marreco, a revisão das normas para doenças raras será uma das prioridades da agência para o segundo semestre de 2026. 

O objetivo é identificar pontos que podem ser aprimorados após anos de aplicação da regulamentação vigente e ampliar o acesso dos pacientes aos tratamentos disponíveis.

O que são as normas para doenças raras?

As normas para doenças raras são regras estabelecidas pela Anvisa para tornar mais ágil o processo de registro de medicamentos destinados ao tratamento de doenças consideradas raras.

Essas regulamentações reconhecem que esse tipo de medicamento apresenta características muito diferentes das terapias tradicionais. 

Em muitos casos, existem poucos pacientes disponíveis para estudos clínicos, a produção ocorre em pequena escala e há grande urgência para disponibilizar novas opções terapêuticas.

Por esse motivo, a Anvisa criou procedimentos específicos que permitem acelerar determinadas etapas regulatórias sem abrir mão da análise técnica sobre qualidade, segurança e eficácia dos medicamentos.

Por que a Anvisa decidiu revisar essas normas?

Após anos de aplicação da regulamentação atual, a Anvisa identificou oportunidades de aperfeiçoamento.

Durante a entrevista, Daniela Marreco explicou que a agência vem acompanhando discussões com representantes da sociedade civil, associações de pacientes e empresas do setor farmacêutico. 

Esse diálogo mostrou que alguns procedimentos podem ser atualizados para tornar o processo mais eficiente.

A revisão das normas para doenças raras também atende a uma demanda apresentada pelas próprias empresas desenvolvedoras de medicamentos, que apontaram dificuldades práticas durante a utilização das regras atualmente em vigor.

Segundo a diretora, todas as mudanças serão discutidas em consulta pública antes de qualquer alteração definitiva, garantindo transparência e participação dos diferentes segmentos envolvidos.

O principal ponto em discussão

Um dos temas mais relevantes envolve o prazo para solicitação da chamada reunião de pré-submissão.

Pelas regras atuais, quando um medicamento destinado ao tratamento de doença rara é submetido inicialmente para análise por uma autoridade sanitária internacional, a empresa possui um período determinado para solicitar essa reunião junto à Anvisa.

Na prática, entretanto, nem sempre quem desenvolveu originalmente o medicamento é a mesma empresa responsável por solicitar posteriormente o registro no Brasil.

É comum que empresas adquiram os direitos comerciais desses produtos somente após a submissão internacional já ter ocorrido. Quando isso acontece, muitas vezes o prazo previsto na regulamentação já foi encerrado.

Como consequência, o medicamento deixa de se enquadrar nos procedimentos especiais previstos pelas normas para doenças raras, mesmo sendo destinado exatamente ao mesmo grupo de pacientes.

Esse é um dos aspectos que a Anvisa pretende discutir durante o processo de revisão.

Controle de qualidade continuará sendo prioridade

Embora a revisão tenha como objetivo ampliar o acesso aos tratamentos, a agência reforça que não pretende reduzir o rigor técnico utilizado na avaliação dos medicamentos.

Segundo Daniela Marreco, qualquer alteração deverá preservar os critérios relacionados à qualidade, segurança e eficácia dos produtos.

Outro tema que poderá receber atualizações envolve justamente os procedimentos de controle de qualidade realizados em território nacional.

A Anvisa informou que recebeu diversas sugestões do setor regulado para aperfeiçoar esses processos, o que também fará parte das discussões durante a revisão das normas para doenças raras.

Esse cuidado é fundamental porque muitos desses medicamentos utilizam tecnologias altamente inovadoras e exigem monitoramento constante ao longo de todo o seu ciclo de vida.

Como essas mudanças podem beneficiar os pacientes?

Embora as alterações ainda estejam em fase de discussão, a expectativa da Anvisa é que a revisão das normas para doenças raras contribua para ampliar o acesso aos tratamentos.

Na prática, processos regulatórios mais eficientes podem reduzir barreiras burocráticas sem comprometer a análise técnica dos medicamentos.

Quanto mais eficiente for o processo regulatório, maiores são as chances de novos medicamentos chegarem ao mercado brasileiro dentro de prazos mais adequados.

Vale destacar que a revisão não significa aprovação automática de medicamentos. Cada produto continuará passando por avaliações rigorosas antes da autorização para comercialização.

Pesquisas clínicas no Brasil

Outro tema abordado pela Anvisa é o fortalecimento das pesquisas clínicas realizadas no Brasil.

A agência trabalha na regulamentação da chamada submissão contínua, modelo que permitirá iniciar parte da análise regulatória antes da entrega completa de toda a documentação técnica.

Na prática, isso poderá reduzir o tempo total de avaliação sem diminuir a exigência sobre os dados científicos necessários para aprovação do estudo.

Segundo a diretora Daniela Marreco, esse modelo tem potencial para tornar o Brasil ainda mais atrativo para pesquisas clínicas, aumentando investimentos, estimulando inovação e ampliando o acesso da população a estudos clínicos envolvendo terapias inovadoras, inclusive aquelas destinadas às doenças raras.

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Nos últimos anos, a medicina tem evoluído rapidamente com o desenvolvimento de terapias avançadas, como medicamentos biológicos, terapias gênicas e terapias celulares. 

Muitas dessas inovações são direcionadas justamente ao tratamento de doenças raras, oferecendo alternativas para pacientes que antes tinham poucas ou nenhuma opção terapêutica.

Na entrevista concedida ao portal Futuro da Saúde, a diretora Daniela Marreco destacou que a regulamentação brasileira para terapias avançadas é relativamente recente e está alinhada às práticas adotadas por outros países. 

O principal desafio, segundo ela, é manter um acompanhamento contínuo dessas tecnologias após sua aprovação. Esse monitoramento é importante porque, em muitos casos, o número de pacientes tratados é reduzido. 

Assim, os chamados dados de vida real (informações coletadas durante o uso do medicamento na prática clínica) ajudam a complementar o conhecimento sobre a eficácia e a segurança desses tratamentos ao longo do tempo.

Esse cenário demonstra que as normas para doenças raras não envolvem apenas a aprovação inicial dos medicamentos, mas também o acompanhamento permanente de terapias altamente inovadoras.

Redução das filas na Anvisa

Outro tema de destaque na entrevista foi o esforço da Anvisa para reduzir o tempo de análise dos processos relacionados ao registro de medicamentos.

Historicamente, o volume de solicitações sempre representou um dos principais desafios da agência.

Para enfrentar esse cenário, foram implementadas iniciativas voltadas à otimização das análises, como o aproveitamento de avaliações realizadas por outras autoridades regulatórias reconhecidas, estratégia conhecida internacionalmente como reliance.

Além disso, a Anvisa reduziu o prazo para que as empresas respondam às exigências técnicas durante o processo de registro, permitindo que as análises sejam concluídas com maior agilidade.

Embora essas ações não sejam exclusivas das normas para doenças raras, elas podem beneficiar diretamente pacientes que aguardam a chegada de novos tratamentos ao mercado brasileiro.

O que esperar dos próximos meses?

A expectativa é que a proposta de revisão das normas para doenças raras seja submetida à consulta pública, permitindo que pacientes, profissionais de saúde, pesquisadores, associações e empresas apresentem sugestões antes da publicação das novas regras.

Esse processo é importante porque amplia a transparência das decisões regulatórias e permite que diferentes perspectivas sejam consideradas durante a construção da regulamentação.

Caso as mudanças sejam aprovadas, elas poderão contribuir para um ambiente regulatório mais moderno, eficiente e alinhado às necessidades atuais da inovação em saúde.

Ao mesmo tempo, a Anvisa reforça que qualquer atualização continuará preservando princípios considerados essenciais para a proteção da população: qualidade, segurança e eficácia dos medicamentos.

Portanto, é importante que aqueles que serão beneficiados com essas mudanças acompanhem as consultas públicas para ficar por dentro de todas as atualizações.

Conclusão

A revisão das normas para doenças raras representa um passo importante na evolução da regulação sanitária brasileira. 

A proposta demonstra o compromisso da Anvisa em aperfeiçoar procedimentos já existentes, considerando a experiência acumulada desde a implementação das regras atuais e ouvindo diferentes setores da sociedade.

Para os pacientes, a principal expectativa é que processos mais eficientes possam contribuir para ampliar o acesso aos tratamentos, sempre preservando os elevados padrões de qualidade, segurança e eficácia exigidos para qualquer medicamento.

Em um cenário marcado pelo avanço constante da inovação em saúde, iniciativas como essa fortalecem o ambiente regulatório brasileiro e podem estimular o desenvolvimento de novas terapias para doenças raras, beneficiando pacientes, profissionais da saúde, pesquisadores e toda a cadeia de assistência farmacêutica.

Fontes:
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa);
Ministério da Saúde;
Artigo do portal Futuro da Saúde (entrevista com Daniela Marreco).